Técnica servirá para esportes em que animais castrados não têm como se reproduzir naturalmente
Está cientificamente provado por pesquisadores e entidades do mundo todo, com índices que atingem até 99% de eficácia, que animais clonados carregam o mesmo potencial genético do individuo original. Neste sentido, uma das funções que vem ganhando força atualmente para utilização dessa inovadora biotecnologia é envolver em clonagem com animais castrados, especialmente eqüinos campeões em provas de salto, enduro e outras modalidades esportivas. O objetivo não em que estes animais voltem a competir, mas sim de se obterem clones com capacidade de produzir espermatozóides e, conseqüentemente, gerar descendentes superiores. Outro ponto em voga diz respeito à clonagem de indivíduos idosos, que ficaram subférteis ou inférteis devido à idade avançada. Diferentemente dos bovinos, em que o melhoramento genético é muito rápido e não se tem interesse em clonar a grande maioria dos animais idosos, muitos garanhões considerados como excelentes permanecem como lideres na produção de indivíduos superiores até sua morte, que ocorre em media entre 25 e 28 anos de idade.
Estes e outros detalhes envolvendo a clonagem foram debatidos durante um palavras ministrada pelo cientista francês Eric Palmer, diretor da companhia de biotecnologia aplicada aos animais Cryzootech S.A – www.cryozootech.com - , um dos laboratórios responsáveis pelo primeiro clone do mundo de um cavalo campeão de corridas. O evento, que teve a participação de estudantes e especialistas, aconteceu em 10 de junho, no Campus II da Faculdade Jaguariúna (FAJ), no interior de São Paulo.
A história da clonagem com eqüinos é recente. Os primeiros nascimentos ocorreram em 2003 , nos EUA, na Universidade de Idaho: foram clones de mulas, pois o proprietário que financiou o projeto queria clonar um mula de corrida. Nesta ocasião, nasceu o macho Idaho Gem – “Jóia de Idaho” – o primeiro clone de um animal híbrido (resultado do cruzamento de espécies diferentes) e estéril (que não pode se reproduzir); a técnica usada foi à mesma que deu origem à ovelha Dolly, o primeiro clone de um mamífero adulto, em 1996. A clonagem da mula ficou marcada como um avanço importante nos esforços para o clone de um cavalo, este sim um animal de alto valor comercial.
FAÇANHA ITALIANA
Algumas semanas depois, exatamente em 6 de agosto de 2003, nascia Prometea, o primeiro cavalo clonado do mundo. O experimento foi realizado em laboratório de Cremona, sul da Itália, por uma equipe dirigida pelo veterinário italiano Cesare Gali, especialista no campo da biotecnologia da Universidade de Cambridge. Além de ser o primeiro cavalo clonado, a égua Prometea, da raça Haflinger, foi o primeiro clone gestado pelo próprio animal que forneceu a célula adulta para a experiência, ou seja, Prometea, é a filha e irmã gêmea de sua mãe.
Já em 2005, o Dr. Palmer foi responsável por clonar, pela primeira vez no mundo, um cavalo campeão de corridas: Pieraz-Cryozootech-Stallion, nascido em 25 de fevereiro, com 42 kg, uma cópia exata de Pieraz, um cavalo árabe campeão de corridas de resistência (Enduro) entre 1994 e 96. A clonagem foi feita pela Cryozootech e pela empresa italiana LTR-CIZ, do Dr. Galli. “Pieraz foi castrado e, portanto, ficou incapaz de se reproduzir. Por isso, decidimos fazer a experiência com o objetivo de reproduzir uma cria de um animal estéril e recuperar suas qualidades genéticas”, explicou Eric Palmer.
As provas de resistência ou Endurance consistem em corridas a cavalo com velocidades controladas por dezenas de quilômetros. Este esporte é muito popular no mundo inteiro, especialmente nos Emirados Árabes Unidos, onde os cavalos locais são conhecidos por sua resistência e força.“Clonar cavalos campeões, que demonstram ser excelentes
atletas, é muito interessante e fácil de sensibilizar criadores e associações”, destaca o professor Marco Antonio Alvarenga, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp (Botucatu/SP) e atual Presidente da Sociedade Brasileira de Tecnologia de Embriões (SBTE). Atualmente, as regras internacionais não permitem inseminação artificial ou qualquer tipo de tratamento de fertilidade para a reprodução de cavalos puro sangue de corrida.
Em seguida, a empresa francesa esteve envolvida na clonagem de um cavalo europeu campeão de salto: o potro Paris Texas, que nasceu em 13 de março na College Station, no Texas (EUA), com colaboração da equipe da Dra. Katrin Hinrichs, da Texas AM University. “Atualmente, possuímos estocados em nosso Banco Genético culturas de células dos melhores cavalos de corrida do mundo”, afirmou Palmer. De acordo com o cientista francês, a intenção da empresa é clonar estes exemplares superiores e vender coberturas aos criados interessados.
BAIXA EFICIÊNCIA
Na avaliação do professor Marco Antonio Alvarenga, da Unesp, as chances de nascimento de um cavalo clonado são ainda muito pequenas, comprovando ser muito baixa a eficiência da técnica. “A chance de ser obter um embrião viável, após clonagem e cultivo in vitro é de aproximadamente 5 a 10%, ou seja, 10 a 20 ovócitos que , após terem recebido o núcleo, se tornam um embrião que poderá ser transferido para uma égua receptora. Este embrião, após ser transferido, tem 10% de chances de vir a nascer. Ou seja, desde o inicio do processo, as chances de nascimento são de apenas 1%”, calcula Alvarenga. Entretanto, diferentemente do que ocorre em bovinos, clones de eqüinos nascem saudáveis, sendo mínimas as chances de morte após o nascimento.
As principais limitações da técnica referem-se à dificuldade de produção do embrião, associado a muitas perdas de gestação (abortos). Segundo Alvarenga, em cavalos a situação se complica ainda mais pela dificuldade de se obter ovócitos de matadouro, que são poucos e distantes, associados ao fato de que o processo de maturação in vitro de ovócitos em eqüinos não está completamente dominado. “Outra dificuldade diz respeito ao processo de fusão nuclear, onde os melhores resultados são obtidos quando se retira a zona pelúcida (camada de glicoproteína que envolve o ovócito) e o embrião se torna bastante frágil”, explica.
CLONE BRASILEIRO
Visando estudar estes aspectos na tentativa de melhorar eficiência da técnica de melhorar, foi aprovado em maio deste ano, pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), um projeto que tem como objetivo final clonar eqüinos aqui no Brasil; os trabalhos pioneiros estarão sob coordenação da professora Fernanda Landim e Alvarenga, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp (Botucatu/SP). “Teremos de estudar os diferentes tipos celulares a serem congelados e utilizados como fonte de matéria genética (núcleo), melhorar a eficiência dos sistemas de maturação in vitro de ovócitos e o cultivo de embriões após clonagem, assim como adequar o sistema de fusão nuclear”, revelou Marco Antonio Alvarenga.
Ainda de acordo com professor, a intenção é poder oferecer já neste ano aos criadores a possibilidade de congelar células, para se aguardar uma melhoria da eficiência da técnica e utiliza-las no futuro, num prazo de três a cinco anos, para produzir clones no Brasil.
Mas, como se dará o Registro Genealógico de cavalos clonados? O professor da Unesp acredita que haverá problemas no futuro. “As associações vão ter de ser posicionar. Acredito que, como ocorreu com outras biotecnias aplicadas à reprodução, a tendência será de aceitar a clonagem e utiliza-lo para o bem das próprias raças e da criação de eqüinos nacional. Penso que a normalização só ocorrerá após o nascimento dos primeiros produtos de interesse”, salientou. No caso do garanhão recém-clonado pela Cryozootech, Paris Texas, sabe-se que ele é um clone de um dos melhores cavalos de hipismo do mundo, mas, até o momento, não se divulgou sua identidade, pois o processo de regulamentação dos clones está em discussão nas associações de raças de hipismo européias.
Portanto, o criador interessado na clonagem deverá possuir tanto garanhões como éguas de altíssimo valor genético, pois a técnica, pelo seu custo elevado de produção, limita a utilização. Hoje, o Brasil ocupa uma posição de destaque no mundo quanto à criação de eqüinos, sendo atualmente o segundo país do mundo em número de cavalos puros, com cerca de 2 milhões de animais.
Além dos garanhões e éguas de raças nacionais como o Mangalarga, o País possui excelentes garanhões e matrizes de destaque internacional em outras raças, como o Cavalo Árabe, Quarto de Milha e Lusitana. Certamente, com o domínio da técnica do futuro, o custo de produção será mais baixo, possibilitando brevemente sua maior difusão.
Fonte:
Revista DBO
A revista de negócios da pecuária
Ano 24 - Nº 297 - Julho de 2005
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